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domingo, 15 de abril de 2007

Pequeno manual de entendimento do mundo



Ainda estou me perguntando o que eu postaria em um blog ... com certeza coisas que eu escrevesse ou achasse interessante de se divulgar. Como primeiro "post" seria bom tentar mostrar um pouco como sou. Então, escolhi um texto meio tortuoso que escrevi há algum tempo que mostra um pouco a minha visão do que é o mundo ... ou do que ele não é ... voilà!



Um pequeno manual para o entendimento do mundo

Será que todos os seres humanos se questionam a respeito do “funcionamento” do mundo. Ou, se o fazem, fazem com a freqüência e consciência necessárias para achar algumas respostas e mais um milhão de dúvidas? Bem, em se tratando de um texto em primeira pessoa, vou me abster de tentar descobrir isso. Já me é difícil responder as centenas de questões que eu me faço todos os dias ou mesmo lidar com as outras pessoas e ainda comigo mesmo. Consigo mais incertezas que dúvidas, mas ao menos sei que luto contra a maré do inconsciente coletivo.
Para tudo há uma resposta, teoricamente se diria. Mas para cada resposta eu digo que vem de brinde uma dúzia de questões. Entender o mundo e entender a si mesmo não é tarefa fácil (e nem possível). Para tanto, filósofos, religiosos, psicanalistas criam teorias ou pregam doutrinas a fim de esclarecer um pouco mais essa escuridão que se chama viver.
Particularmente falando, concebo o mundo como um local simples, mas artificialmente complicado. As pessoas não conseguem entender a si mesmas, o que impossibilita a compreensão do que as cerca. Assim sendo tem-se duas insensatas saídas: culpar os outros, sejam enquanto grupo ou individualmente e fazer da convivência humana um perfeito inferno. (“O inferno são os outros”, escreveu Sartre) ou alienar-se o máximo possível se abstendo de pensar em algo mais complexo e consumir todas as teorias possíveis como se essas pudessem ser enlatadas e vendidas no supermercado. Mastigar e engolir certas pseudo-compreensões é com certeza mais fácil. Em seus personagens futuristas e alienados, autores como Orwell e Huxley recriam seres humanos completamente mecânicos como uma caricatura da humanidade tal qual se encontra agora. Nesse caso, poderia-se recorrer então a uma possível saída estratégica, que driblasse qualquer uma dessas opções? Afinal passar a vida em guerra com o mundo ou ignorando-o completamente não parecem saídas tão interessantes (apesar de serem as opções feitas pela esmagadora maioria da humanidade). Que tal uma saída baseada no auto-conhecimento e no pensamento individual, em que questionamentos fossem feitos como sinônimo de busca da sabedoria?
Voltando a minha concepção de mundo, reitero que não é possível traçar linhas ou estabelecer qualquer sistematização que possa satisfazer alguém com o mínimo de senso crítico. Não sou um pensador, mas não sou um alienado. Por que eu deveria pegar as teorias prontas e encarnar um personagem na multidão dita normal? Não que eu seja taxado de anormal, pelo contrario, mas simplesmente não me preocupo em ser mais um na multidão. Sou contra rótulos: não sou de esquerda, nem de direita. Não sou religioso, mas não sou descrente. Acredito em algo superior, mas longe da concepção que as pessoas em geral têm de Deus. Sou contra radicalismo e violência, mas defendo a liberdade a todo custo. “Um pequeno feixe de contradições”, disse Anne Frank sobre si mesma e isso se encaixa em qualquer pessoa, desde que essa esteja disposta a pensar sobre sua existência enquanto ser humano. Toda essa turbulência é interessante, mas altamente convulsiva, principalmente em um mundo de idéias prontas e pessoas ora radicais ou alienadas, mas de qualquer forma cegas (que o diga o brilhante Salman Rushdie condenado a morte por radicais islâmicos).
A liberdade de pensar e agir de acordo com a própria concepção sempre foi algo problemático e no inicio do século XXI, quando a conquista do espaço já é um fato histórico relativamente distante a conquista da liberdade se torna ainda mais distante, para não dizer utópica. A alienação e o radicalismo são pré-requisitos para o preconceito e para a discriminação. Pessoas com visões de mundo diferentes e dominadas pela coletivização do pensamento tendem a combater entre si em nome de suas idéias (suas mesmo de fato?). Como ser humano, sou dotado de preconceito. Isso é algo quase não-assumível, mas não me deixo levar além do prefixo, pois o conceito se forma depois, ignorando quaisquer rótulos externos. Eu me pergunto cheio de revolta como em nome de Deus ou em nome da justiça há pessoas que matam, oprimem, ferem e se orgulham disso. Se há algo que um ser humano pode fazer de mais baixo é humilhar, usar de violência ou matar outro ser humano seja qualquer o motivo. As pessoas veneram grandes conquistadores que encharcaram o planeta de sangue, enquanto eu particularmente os desprezo (Abro um parênteses para dizer que na Historia, o bandido ou o mocinho depende de quem vence ou de quem tem os aliados certos). Por isso Mahatma Gandhi, Martim Luther King, Lech Walesa, Nelson Mandela, Chico Mendes e tantos outros são ícones para mim. Eles provaram que lutar não precisa vir no mesmo campo semântico de “matar”.
Mas, enfim, retornando o fio do meu pensamento, que já está excessivamente tortuoso e não segue caminho algum (quem disse que eu deveria?) volto a questão primeira do questionamento sobre a vida. Ao terminar de ler um livro de Michael Cunningham, Uma casa no fim do mundo, me deparo com Jonathan que questiona por um momento a sua mãe se ela sentia em que ponto de sua vida havia uma tangente que após tomada não se teria volta? Sabemos há coisas reversíveis, mas há ocasiões em que determinadas decisões tomadas conduzem nossa existência a um caminho que se não definitivo, deixa para trás toda uma outra gama de direções que se fecham com porteiras que não podem mais ser transpostas. Essa decisão do que se fazer e a necessidade de se firmar em algo são dois paradoxos capazes de fazer qualquer ser humano entrar em desespero. Há pessoas que não fincam raízes, mas há outras que sentem necessidade disso e lutam contra a pressão da estabilidade com medo do marasmo que ela pode oferecer. Eu sou tão fincado na terra como uma jacarandá centenário, mas uma parte minha que voa tão alto que não consigo ver a olho nu. A intersecção dessas duas retas me fazem realmente mal ... Posso arrancar as raízes após um esforço muito grande ou mesmo posso alçar vôo e pousar em local seguro ... mas dentre essas duas opções escolho uma terceira: a incerteza, que me deixa mal, mas que me dá um chão temporário e movediço por onde me esguio. É nesse terreno incerto que eu vivo, aliás, que todas as pessoas vivem, mas sem perder o tempo (ou seria ganhar?) de se perguntar que direção tomar e o porquê tomar.
Como vemos ... a dura tarefa de existir não é algo tão simples assim. Se o fosse, cairia no marasmo total.




By: Carlos Eduardo de Oliveira Ramalho

Imagem: "A persistência da memória" de Salvador Dalí

9 comentários:

Edmilson Borret disse...

Muito bom o texto, Carlos! Profundo, sério e belo. Parabéns!
Quanto ao blog, eu como blogueiro há mais tempo, poderia te sugerir umas coisinhas, se vc me permite? A leitura, pelo menos pra mim, se torna difícil pela cor do fundo e cor e tamanho da fonte que vc escolheu. Sobretudo para textos longos como o seu, ok? É uma dica. Perdoe-me se pareço inconveniente.
No mais, o blog é bonito, é clean, é elegante... Aliás, como vc.. rsrsrs
bela iniciativa sua!
Um gde abraço!!!!

Pedro Henrique disse...

Oi Carlos, ao contrário do que você imaginou, eu gostei do texto. Gostei e conconrdo com muita coisa, especialmente de algumas partes que depois eu comento com você, e como primeiro post tá otimo.
Até mais.

Eduardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel disse...

Olá Carlos!
Parabéns pelo seu Blog, realmente seu texto está otimo, adorei.
Um Abraço

"Se você quiser minha opinião final sobre o mistério da vida e tudo isso, posso resumi-la em poucas palavras. O universo é como um cofre para o qual existe uma combinação. Mas essa combinação está trancada dentro do cofre." (Peter de Vries)

Maria José disse...

Adorei seu texto.
Confesso que não estou surpresa.
Você escreve muito bem.
Parabéns.
bjus

João disse...

Fashion é ser inteligente.

Larissa disse...

Oii Carlos!!
Nossa! Muito bonito e inteligente seu blog... suas palavras são finas e o conteúdo extremamente interessante, nos faz refletir sobre como é a vida e o que podemos fazer para muda - la...
Adorei!Parabens!!
Bjoss

Maria José disse...

Fico feliz ao ler os seu textos.
Você está cada dia melhor.
Continue assim amigo.Você vai longe.
Parabéns!

julianapelegrini_4 disse...

Parabéns!!!Esse texto como todos os outros está maravilhosamente bem escrito. Adoro ler seus textos, por serem profundos e verdadeiros e fazerem a gente pensar em nossa vida e em tudo que acontece ao nosso redor. Bjus.