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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Gavetas


Não fui trabalhar hoje. Fiquei em casa. Quase nunca faço isso e aproveitei para arrumar algumas gavetas de papéis, cartas, fotos e toda e qualquer coisa possível de ser guardada e que eu ainda não havia jogado fora em minhas faxinas reflexivas anteriores. Um dia ainda vou defender uma tese sobre o efeito que uma gaveta sendo arrumada pode causar em nossa cabeça. Na minha pelo menos causa. Imagino o título já, com retoques de pseudo-erudição: “A influência do ato de arrumar gavetas na desorganizada mente humana”. Tão ridículo, quanto patético, fruto de uma imaginação tão fértil quanto sarcástica. Se eu fosse conhecido ganharia o igNobel pela irrelevância dessa pesquisa para a humanidade ... tão relevante quanto a pesquisa de um biólogo norueguês que escreveu sua tese acerca do efeito da cerveja, alho e creme azedo sobre o apetite dos piolhos ou do lituano que recebeu o igNobel da Paz por criar o parque temático “O mundo de Stálin” ...
Divagações e parênteses à parte é certo que me sinto muito bem quando vou às dezenas de gavetas de papéis do meu quarto e começo a arrumá-las, metodicamente classsificá-las e rearrumá-las ... há verdadeiramente uma sensação de organização mental.
Tenho uma caixa com cartões que recebi nos últimos doze anos. Cartões de Natal, quando eu ainda gostava de Natal. Cartões de aniversário de amigos que ainda conservo e de alguns que me lembro com carinho, mas que perdi completamente o contato. Mensagens que me fazem refletir sobre um tempo em que ainda sonhava em mudar o mundo e que tinha sonhos que ainda conservo que visualizo hoje com lentes de maior realidade. Encontrei textos que escrevi há anos, encontrei todo e qualquer ingresso de parques, museus, shows e festas que fui nos últimos anos ... revirar essa caixa para mim é como reviver toda uma vida.
Passei para as mais de mil cartas que meus 10 anos de correspondência com o mundo produziram ... li alguma que me tocavam mais, como a carta de uma amiga italiana que continha um lindíssimo cartão por ocasião dos meus 18 anos, relembrei com carinho meus amigos tão queridos que eu nunca encontrei e que sempre sonhei encontrar: Clara Wella, Benjamin Manav, Jana Kunstek, Rosi Pagani, Zita Grineviciute, Juan Jiménez, Inna Lapis entre tantos outros ... por anos dividi meu mundo com todas essas pessoas e compreendi o quanto somos cidadãos de um mundo só. Eu cresci, dividindo as mesmas indagações, protestos e alegrias que jovens dos quatro cantos do mundo ... isso me ajudou muito a quebrar barreiras de preconceito, um preconceito de quem sempre acha o outro diferente por algo, quando na verdade sempre fomos todos tão iguais além da casca chamada “cultura” que aprendemos cada qual no meio em que vivemos.
Remexi, por fim em fotografias. Há umas cinco gavetas específicas para elas, devido à quantidade da era pré-digital. Arrumei primeiro um grande lote de fotos antigas da família do meu pai, com rostos irreconhecíveis para qualquer pessoa hoje. Eram fotos enviadas por parentes na Itália na década de 30, com dedicatórias em italiano no verso. Fotos tiradas no Brasil, em lugares que eu nem imagino, mas que gosto de olhar e imaginar o exato momento em que aqueles rostos foram imortalizados. Será que eles imaginavam que 80 anos depois alguém olharia para a foto deles e se perguntariam quem eram ou que pensavam?
Passei para um bloco de fotos mais numerosas, cujos rostos expressos me eram familiares ... eu me dediquei em especial, de maneira egocêntrica, às minhas fotos: centenas delas! E imaginei o que pensariam os meus futuros parentes dentro de 80 anos ao observarem meu rosto. Passei pelas minhas fotos de bebê, de cabelo castanho-claro (e testa proeminente!) e olhos já bastante escuros, apesar da tendência familiar que acompanhou muitos de meus primos a terem olhos azuis! Vi minhas fotos de escola, meus primeiros óculos (enormes por sinal), depois vieram fotos de adolescência, época em que eu menos me registrei por odiar minha aparência. Dessa época guardo mais textos que imagens ... eu era bastante revolucionário e sinto falta dos meus sonhos de então. Continuei pelas fotos de viagens (que saudades da França!), fotos da faculdade, fotos com amigos, com a família ... eu revivi minha história. Recontei fatos a mim mesmo e fiquei feliz por me convencer que eles realmente aconteceram da maneira que eu os recriei. Senti que eu já não era mais o adolescente que criticava o sistema sem ser socialista; que abominava a hipocrisia do Vaticano, mas freqüentava a igreja; que admirava profundamente a Itália e sonhava um dia viver lá como no tempo dos antepassados; que lia o jornal todos os dias e ficava feliz quando ia chover no norte do estado de São Paulo; que guardava uma paixão pelo povo judeu até hoje inexplicável ... e que sonhava mais do que vivia.
Eu recoloquei tudo no lugar, reclassifiquei com método cada gaveta e meus pensamentos foram sistematicamente sendo ajustados. Não pretendo defender nenhuma tese, mas não poderia ter escolhido uma ocupação melhor. Isso me fez tão bem! Mal posso esperar para que minhas gavetas estejam de novo em desordem, com cadernos, fotos, textos e tudo mais um pouco fora de lugar. Se isso demorar, eu sempre posso inventar uma nova maneira de classificar as coisas para poder olhá-las uma a uma e reclassificá-las no lugar que lhes é cabível. E passarei uma tarde nostálgica, com saudades até, de um tempo bem vivido e de um tempo bom, sendo vivido.


Imagem: Quadro de Salvador Dalí, cujo nome desonheço

4 comentários:

Carlos Eduardo Ramalho disse...

Comentário deixado no orkut por Sílvio Fiorani, Prêmio Machado de Assis de 2006, o que me deixou muito honrado:

"Li a sua bela crônica no blog, e fiquei assim sabendo que temos muito mais identificações do que vc pode imaginar. O texto é muito bem elaborado e orgânico (ainda que essa palavra seja um tanto técnica), sem falar no seu domínio da língua. Passada a minha "correria" deste dias, postarei um comentário lá. Parabéns mais uma vez"

GABRIEL ZANIN disse...

Olá Carlos!
Li sua crônica e ela está simplismente fantastica!
Parabéns!!!

Luis Augusto disse...

Olá Carlos!
Sua crônica é simplesmente FABULOSA! Extraordinária! Estou sem palavras para descrever seu excelente texto nostálgico, em que eu vi você nítidamente "arrumamando" suas gavetas e revivendo os momentos inesquecíveis de sua vida.
Parabéns!

Márcio disse...

Como crônica excelente, retratos e postais, pedaços de vida...que todos compreendemos, uns mais que os outros mas de uma forma ou de outra o tempo a todos nos sensibiliza...a um passado que não parecia nada, mas agora é de um valor inestimável!!!
Parabéns, você sempre me comove com seus escritos...