Passagens por aqui ...

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Somos todos minguantes ... a vez do Horácio

Setembro será com certeza um mês dedicado aos quadrinhos. A linguagem das tirinhas e de seus personagens formam uma nova e surpreendente forma de comunicação. Os quadrinhos são rápidos e diretos e sejam destinados às crianças ou aos adultos são um grande entretenimento. Na semana passada, postei algumas tiras da impetuosa e politizada garotinha argentina Mafalda ... agora posto apenas um quadrinho, daquele que considero o mais dode e filosófico personagem de HQ's brasileiro: o dinossaurinho Horácio, criação de Maurício de Souza. O próprio Maurício já declarou ser ele seu personagem predileto e declaro o mesmo a rspeito dessa criaturazinha adorável. Esse tironassurozinho verde é um grande sonhador ... e um grande sábio também. Abaixo, tomei a liberdade de deixar um link de um blog onde se vêem mais uma série de tirinhas do Horácio ...

Viva os sonhadores ... Allez les rêveurs!



Mais do Horácio: http://quadrinhosdohoracio.blogspot.com/

sábado, 1 de setembro de 2007

Un poquito más de Mafalda ...

Precisamos de umas Mafaldas no Brasil ... talvez a situação seja mais simples aqui que na Argentina em que ela vive ... pelo menos temos samba, Carnaval e somos penta-campeões mundias de futebol ...

Isso é bom, não é??





O jeito Mafalda de ver o mundo

Questionar o mundo é algo inato e profundamente necessário, creio eu. Então, porque não fazê-lo de forma bem humorada? É justamente o que faz Mafalda, criação do cartunista argentino Quino. Mafalda tem uma concepção de mundo muito clara e, sobretudo, crítica e enxergar a realidade sob sua ótica é profundamente interessante ...





Claro que não concordamos quanto à sopa, mas quanto aos Beatles ... oh, yes!

domingo, 12 de agosto de 2007

Identidade


Eu leio, eu ouço, eu vejo, eu penso: em tempos cada vez mais globalizados em que se demonstra uma uniformização de costumes e identidades, parece cada vez menos importante se auto-afirmar, procurar uma raiz no qual se fincar. Eu encaro pelo lado oposto, se tomarmos somente o Ocidente, supostamente uniformizado, vemos tantas diferenças, tantas quantas vemos se tomarmos apenas o Brasil. De alguma forma as pessoas procuram uma identidade para se firmar mesmo que se sintam cidadãos do mundo. Ora, caminhar o tempo todo entre o individual e o universal é uma tarefa deliciosamente complicada ... dessa maneira, aproveitei algumas reflexões que fiz em um texto há algum tempo em busca de minha identidade
Sou brasileiro, nascido em terras tupiniquins. OK. Isso somente não basta, a busca da identidade chega quase ao nível individual. Identifico-me com os outros brasileiros principalmente pela língua que temos em comum, pois, convenhamos, tenho culturalmente muitas diferenças com um germânico catarinense, um ribeirinha amazônico ou um sertanejo potiguar ... são realidades muito diferentes da minha, formações histórico-culturais muito únicas, como já escreveu Darcy Ribeiro. Sendo assim. defino-me inicialmente como paulista interiorano, simplesmente conhecido como “caipira”.
Partindo desse princípio, discuto sobre essa minha identidade interiorana: É certo que já ouvimos a palavra “caipira” ser utilizada de maneira pejorativa. A maioria das pessoas jamais se assumiria caipira. Na verdade, poucas pessoas atualmente se auto-proclamam como tal e se orgulham disso. Nega-se as suas próprias origens, quando na verdade, deveria -se orgulhar muito delas. A nossa história é uma história de coragem e a nossa cultura, embora hoje bastante descaracterizada, é única. Franceses se orgulham de sua origem celta, mesmo que hoje pouco ou nada tenha restado desta herança ... caipiras do mundo, orgulhem-se uai!
O povo caipira se formou a partir da mestiçagem iniciada a partir da subida dos portugueses da Serra do Mar e do início das investidas bandeirantes pelo interior ... não entrando no mérito histórico da questão, a partir daí os brancos portugueses, os índios locais, que iam sendo gradativamente dizimados e posteriormente o elemento negro formou esse embrião, essa salada de culturas que foi moldando a cultura do interior paulista, acrescida pela chegada de milhões de imigrantes que ao contrário do ocorrido no Sul se mesclaram com a população local, bem como os migrantes vindos de outras regiões brasileiras. Com o desenvolvimento da região, o interior foi se urbanizando e a cultura caipira foi perdendo suas características. As canções melodiosas que retratavam o cotidiano camponês deram lugar a músicas românticas que nada lembram a “real cultura sertaneja” e as cidades ganharam inspiração texana influenciadas pela cultura norte-americana. A cultura caipira foi sendo aos poucos esquecida e mesmo depreciada. “Caipira” virou sinônimo de brega, atrasado, quando na verdade deveria remeter a um povo que tem toda uma história a se orgulhar. Um povo formado desde o início por gente corajosa: bandeirantes que desbravavam regiões selvagens, imigrantes que cruzaram o oceano em busca de oportunidades em terras desconhecidas, brasileiros que deixavam suas regiões em busca de uma vida melhor. Com uma história tão gloriosa e uma cultura tão rica porque se envergonhar de ser caipira? Antes, deveríamos resgatar o real sentido que essa palavra traz. O sentido positivo, o de ser paulista do interior, que mesmo não vivendo no dia-a-dia essa cultura em si, infelizmente bastante desgastada, a respeita e contribui para que ela continue viva.
Minha identidade caipira, de pais e avós nascidos na roça, de sangue luso-italiano, me faz saber quem eu sou em um mundo em que as culturas locais perdem força em detrimento a uma cultura globalizada. Sou orgulhoso de minha origem luso-ítalo-caipira e isso me faz criar raízes e me identificar no mundo e mesmo dentro do meu país. O fanatismo com relação à própria identidade cultural é algo perigoso, mas a não-identificação é tão perigosa quanto. Não se trata de rotular, mas de se reconhecer. Como já disse anteriormente, em detrimento de qualquer outra coisa, o auto-conhecimento é fundamental, e isso implica unir os planos individual e coletivo, já que a junção de ambos converge para aquilo que inegavelmente somos.

Romaria (Renato Teixeira)

É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre meu cavaloÉ de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a só

(Refrão)
Sou caipira, pirapora,
NossaSenhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
À custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte, eu não sei, nunca vi

Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir deRomaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar


Foto: “Paisagem rural” do pintor primitivista rio-pretense, caipira de alma, José Antônio da Silva.

sábado, 4 de agosto de 2007

Não tenho dó das estrelas


Tenho dó das estrelas

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.

Não haverá cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço,

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser.
O ser triste brilhar ou sorrir...

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim,
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

Fernando Pessoa


Não tenho dó das estrelas ... eu apenas as admiro.
"Noite estrelada sobre o Ródano", de Vincent Van Gogh (1888)

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Babel


Eu me vi hoje vivendo em uma Babel. Assisti ao filme do diretor Alejandro González-Iñárritu e confesso que fiquei impressionado, ao enxergar coisas de um foco até então não visto. Pessoas de diferentes “mundos”, falando diferentes línguas, com realidades sociais, econômicas e religiosas completamente diferentes ... e diante disto a grande questão é: Seriam elas capazes de se comunicar? A japonesa surda-muda, o casal de americanos em meio um suposto ataque terrorista no Marrocos, a babá ilegal mexicana cruzando a fronteira americana: Todos seriam capazes de dialogar? A questão é esquecer as “diferenças” e tentar chegar ao íntimo do outro em uma sociedade mundial globalizada que não nos permite isso. Valores individuais são positivos, contanto que não se leve isso à fronteira do egoísmo ... o ser humano não é uma ilha e pode chegar ao outro, pode compreender o outro. O grande problema de nossa Babel moderna não é fato de se falar em uma língua diferente, mas em se tentar compreender o outro apesar de qualquer coisa. A Babel do século XXI foi construída em sólidos alicerces e é bem difícil de ser destruída. Einstein disse que o ser humano chega até à Lua, mas não ao seu semelhante. Essa frase resume tudo ... A rica garota japonesa incompreendida em seu universo não se difere nem um pouco do garoto marroquino que usa a arma como um brinquedo... os seres humanos clamam por diálogo, por serem compreendidos, respeitados, seja em nível coletivo ou individual, conscientes ou não de sua condição. Nossa Babel continua crescendo e ao contrário de sua versão bíblica, a incompreensão não é uma barreira, mas um alicerce para o seu desenvolvimento.


"A Terra girou para nos aproximar
A Terra girou para nos aproximar,
girou ao redor de si mesma e dentro de nós,
até que finalmente nos uniu neste sonho
como foi escrito no Simpósio
Noites passaram, neves e solstícios;
O tempo passou em minutos e milênios
Uma carreta que ia para Nínive
Chegou a Nebraska.
Um galo cantava distante
Na pré-vida de nossos pais
A terra girou musicalmente
Levando-nos a bordo;
Não parou de girar um único momento,
Como se tanto amor, tanto milagre
era somente um provérbio escrito há muito tempo
entre as partituras do Simpósio"

(Eugenio Montejo - Caracas, Venezuela, 1938)

Foto: “A torre de Babel”, de Pieter Bruegel (1563)

domingo, 1 de julho de 2007

Joie de vivre


Às vezes sonhamos viver eternamente ... mas porquê será que às vezes uma tarde chuvosa de domingo parece demorar mais que uma eternidade a passar?
Na verdade somos criados para buscar grandes coisas enquanto a nossa “pérola”, como escreveu Steinbeck está bem ao nosso lado e não percebemos. Somos por demais ocupados para perceber o brilho de nossa pequena pérola bem próxima ... então saímos em busca dela, quando na verdade nos distanciamos cada vez mais.
Ao ver pela enésima vez o filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain” não consigo deixar de pensar na maneira simples em que vivia a personagem central da história. Amélie se dedicava aos pequenos prazeres do dia-a-dia e eram esses que a faziam feliz. Como é bom caminhar pela manhã em uma bela estrada, olhar o céu à noite e esquecer o mundo, comer algo diferente que sempre quisemos experimentar, ler um bom livro, deixar a chuva de verão nos ensopar. Hoje tudo isso parece piegas, mas mesmo assim não nos prestamos a isso. A nós seres adultos e sérios tudo parece “efêmero” e “pequeno” demais quando na verdade essas pequenas peças formam o quebra-cabeça que tentamos montar em grandes blocos ...
Se pudesse dar um conselho a mim mesmo nessa tarde cinzenta de sábado seria: aproveite as pequenas coisas, pequenos momentos e lhes dê o verdadeiro valor. Estou aconselhando a mim mesmo agora e já estou abrindo a janela para deixar a brisa entrar.
Acho que estou indo no caminho certo ...