Passagens por aqui ...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Morrer aos vinte e sete ...









Falar sobre pessoas é muito difícil. Descrever alguém complexo e genial torna essa tarefa ainda mais árdua. Esse pequeno texto despretensioso pode ser uma mea culpa pela distorcida visão que tinha de Amy Winehouse antes conhecer sua história ou uma homenagem, pela artista magnífica que foi e que se transformou em uma referência para mim. Como já disse, não sou eu que serei incumbido de escrever o legado dessa judia londrina de voz poderosa, mas a história dos grandes, pois infelizmente a vida é muito curta para os gênios ...

Never clip my wings (nunca amarres as minhas asas), tatuagem de Amy em seu braço direito.

“Eu já morri centenas de vezes.” (Amy Winehouse)

“Ah can I play myself again?
Or should I just be my own best friend?”
(Tears Dry On Their Own)

Abaixo, a canção que sempre me fará lembrar de Amy, "Back to black" ... Incrível!!!


http://www.youtube.com/watch?v=TJAfLE39ZZ8&feature=fvst 

Terror



Depois de tanto tempo sem ao menos dar uma olhadinha no meu blog, resolvi escolher um tema para iniciar uma nova fase de publicações. Eu poderia ter escolhido algo menos denso, mas como o ato de escrever, exorciza nossos fantasmas, é justamente esse que tenho que exorcizar agora.

Ao ler e me chocar novamente com notícias sobre atentados essa semana, sendo os noruegueses as vítimas da ocasião, não deixei de expressar o que sempre me vem em mente ao ler notícias assim: Quanto vale um ser humano?

Eu escrevo assim, de forma seca pela constatação pura e simples de que o terror(ismo) e os assassinatos brutais em prol de uma causa (?!) varrem o mundo constantemente e vão (infelizmente) continuar varrendo enquanto seres humanos habitarem a Terra. Falo isso, contrariando minha visão idealista, porque as pessoas não aprenderam e talvez nunca aprenderão a mais óbvia das certezas, que é a de que todos os seres humanos valem exatamente o mesmo tanto, pouco ou muito, não importa, mas tem o mesmo valor diante da humanidade, ao contrário do que pensam radicais de todos os segmentos.

Recentemente fui acusado de sionista por um paquistanês que me tratou grosseiramente diante da minha defesa da igualdade dos judeus perante os outros seres humanos, enquanto ele afirmava em seguida que apedrejar mulheres vivas era uma questão religiosa e cultural. Isso soa absolutamente incoerente para mim! Fui acusado de pró-Islã-Palestina por um israelense quando condenei os ataques israelenses a um navio que levava ajuda à Gaza alguns meses atrás e de anti-americano por um Republicano do Texas ao condenar o apoio dos norte-americanos às ditaduras de direita que trouxeram terror à América Latina durante a Guerra Fria ... será que os erros alheios são condenáveis, mas nossos próprios erros, os erros cometidos em prol das causas que apoiamos são justificáveis mesmo que brutais? Eu apenas queria mostrar que assassinatos em Tel Aviv, Nairóbi ou Londres tinham o mesmo peso e que isso não era uma questão de nacionalidade, mas sim da falta de aceitação de outrem ... fico indignado quando massacres na África viram notícias de pé de página e um assassinato na Escandinávia ganha comoção mundial. Nessa questão eu não estou minimizando os ataques em Oslo, mas chamando atenção para que um ataque em Darfur ou Ruanda tenha o mesmo peso ... a crueldade é algo interno ao ser humano e não nascemos com uma nacionalidade, apenas nascemos humanos, portanto somos supostamente iguais até que alguém nos imponha um rótulo... e esse rótulo tem um preço.

Ser um cidadão do mundo em um mundo que não trata igual a todos é perigoso, mas é assim que me sinto e não consigo me posicionar de forma diferente. Amos Óz publicou uma obra a partir de uma palestra sua na Alemanha intitulada “Como curar um fanático”, inúmeras ideias interessantes sobre o mal do fanatismo ... mas eu me pergunto mesmo assim: Fanatismo tem cura? Neo-nazistas, Sionistas, Fundamentalistas cristãos ou islâmicos buscam uma cura para suas crenças? Infelizmente vejo que não, creio que não e penso que o mundo ainda vai continuar se perguntando: Onde será o próximo ataque? Onde ocorrerá um novo massacre? Onde inocentes vão pagar por erros que na maioria das vezes não são seus? E a história se reinicia, nas manchetes ou notícias de pé de página ... elas mantem seu ciclo pelo mundo que não sabe rir de si mesmo ou chorar os mortos que não consideram seus.

O terror nasce mais da indiferença que do ódio em si ...


Imagem: O Grito (no original Skrik), do norueguês Edvard Munch (1893)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Presente de Leminski: "A lua no cinema"


A Lua no Cinema


A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!


Paulo Lemisnki



Para não dizer que não falei de flores ...

Presto aqui minha homenagem aos nossos irmãos portugueses, pela sua poética revolução ... há 36 anos a República Portuguesa se tornava uma democracia e deixava para trás Salazar e o Colonialismo ... e como símbolo dessa revolução: cravos!

Como fundo, a belíssima composição de Geraldo Vandré, aqui interpretada pelo inigualável Zé Ramalho e que fala justamente sobre os anos de chumbo e de luta, aqui no nosso país ... quando sonhar com flores era efêmero demais, diante da realidade!

Do youtobe: http://www.youtube.com/watch?v=Ir_fS36_DfE

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O tempo, apenas um paradigma incompleto

Há tempos não posto nada e confesso que há tempos não conseguia imaginar sequer o que escrever. Ou será que eu realmente não queria escrever nada, uma vez que a inspiração é um estado de espírito inexplicável e para escrever é preciso muito mais transpiração? Não sei dizer. Na verdade sei menos a cada dia e o tempo cronológico passa e deixa meus paradigmas jogados ao solo. Acredito que até mesmo o sentido da palavra paradigma esteja para mim deturpado, uma vez que a cada dia me deparo com novas e paradoxais situações das quais jamais imaginaria antes deparar. O que fizeram com meus paradigmas? O que eu fiz com meus paradigmas? O tempo seria então um período contado a partir de ponteiros inexatos e que nos traz idade, mas nos leva os padrões que construímos? Não que eu acredite que os seres humanos internamente sigam sempre os mesmos padrões estabelecidos de maneira inconsciente e coletiva, mas ao menos tem em si regras internas e configurações sobre o funcionamento das coisas. Verdade? Pura ilusão: Somos desconfigurados a cada dia e necessitamos de uma nova adaptação, ateando fogo a paradigmas ou ingressando no ostracismo se quisermos mantê-los ...
Não proclamo minha desilusão ao tempo que passa nem aos meus paradigmas incinerados, mas gostaria de um tempo sem ponteiros para me adaptar à nova realidade imposta, mas o próprio tempo se encarrega de nos levar a utopia, ou de nos fazer escondê-la ...
É tempo de mudanças, diz-se ... vou, pois, seguindo essas mudanças e quanto aos meus paradigmas, ora, até o exato momento em que se posiciona o ponteiro eles tentam se manter. Resta saber até quando.


Marcel Duchamp, A fonte

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Feliz Novo Ano



Novo ano. Nova era. Será? Essa simples quebra cronológica exerce sobre nós meros mortais tanta influência assim? Na verdade, tudo não passa de uma inspiração profunda dentro de um grande balão de oxigênio em que uma vela acesa tira cada vez mais o ar. Pessimismo? Não diria isso, creio que uma dose de realismo não faz mal a ninguém! A vida não é fácil como dançar um reggae de Bob Marley na praia, talvez, seguindo essa analogia, ela seria mais parecida com tango de Gardel: Melancólica e difícil de ser conduzida ... mas ao ser conduzida, torna-se cheia de belezas!

Machado de Assis já declarou que quase sempre a maior ou menor felicidade depende do grau de decisão de ser feliz. Isso fica cada vez mais evidente quando a cada ano vemos que as coisas não mudam tanto quanto pensamos ou da forma como muda o nosso calendário sobre a mesa, mas o que realmente muda é o nosso enfoque diante delas ...

E quanto ao novo ano? Não sei ao certo, mas se janeiro não for bom, me converto ao judaísmo e espero o Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico que deve ser em meados de setembro ... afinal, sempre há uma segunda chance e um novo calendário a recomeçar. E o tango? Será um grande prazer dançá-lo de novo sem pisões no pé e tropeções ... e se for difícil, já que estamos na terra do samba ...

sábado, 15 de novembro de 2008

Poesia lusófona - Carlos Drummond de Andrade


Depois de um significativo afastamento de meu blog, senti uma certa saudade ... na verdade, ao olhar para a tela não me ocorria nada para atualizá-lo, até que a própria palavra "saudade" o fez: Nada mais único do mundo lusófono que esse termo que só nós brasileiros, portugueses, angolanos, enfim, falantes nativos do Português entendemos ... sentir saudade! Então, inspirado pelo termo, decidi publicar poesias de grandes lusófonos até que minha inspoiração surja ... e garanto que a publicação desses não será um mero preenchimento de espaço em branco ... tanto que começos com nada menos que o mineiro Carlos Drummond de Andrade e um de seus maiores peomas: A máquina do mundo. Voilà:


A Máquina do mundo


E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos monte

se de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável


pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.


Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas,


assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão

atestasse que alguém, sobre a montanha,


a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:"

O que procuraste em ti ou fora de


teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,


olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,


essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo


se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste... vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”


As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge


distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paixões e os impulsos e os tormentos


e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber


no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar,

na estranha ordem geométrica de tudo,


e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que todos

monumentos erguidos à verdade:


e a memória dos deuses, e o solenes

entimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,


tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.


Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,


a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;


como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face


que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele

habitante de mim há tantos anos,


passasse a comandar minha vontade

que, já de si volúvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes


em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora

apetecível, antes despiciendo,


baixei os olhos, incurioso, lasso

,desdenhando colher a coisa oferta

que se abria gratuita a meu engenho.


A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,


se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagaroso, de mãos pensas.


Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”.