Passagens por aqui ...

sábado, 15 de novembro de 2008

Poesia lusófona - Carlos Drummond de Andrade


Depois de um significativo afastamento de meu blog, senti uma certa saudade ... na verdade, ao olhar para a tela não me ocorria nada para atualizá-lo, até que a própria palavra "saudade" o fez: Nada mais único do mundo lusófono que esse termo que só nós brasileiros, portugueses, angolanos, enfim, falantes nativos do Português entendemos ... sentir saudade! Então, inspirado pelo termo, decidi publicar poesias de grandes lusófonos até que minha inspoiração surja ... e garanto que a publicação desses não será um mero preenchimento de espaço em branco ... tanto que começos com nada menos que o mineiro Carlos Drummond de Andrade e um de seus maiores peomas: A máquina do mundo. Voilà:


A Máquina do mundo


E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos monte

se de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável


pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.


Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas,


assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão

atestasse que alguém, sobre a montanha,


a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:"

O que procuraste em ti ou fora de


teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,


olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,


essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo


se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste... vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”


As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge


distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paixões e os impulsos e os tormentos


e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber


no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar,

na estranha ordem geométrica de tudo,


e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que todos

monumentos erguidos à verdade:


e a memória dos deuses, e o solenes

entimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,


tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.


Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,


a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;


como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face


que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele

habitante de mim há tantos anos,


passasse a comandar minha vontade

que, já de si volúvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes


em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora

apetecível, antes despiciendo,


baixei os olhos, incurioso, lasso

,desdenhando colher a coisa oferta

que se abria gratuita a meu engenho.


A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,


se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagaroso, de mãos pensas.


Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”.


sábado, 21 de junho de 2008

Um pouco de poesia ... o erro e o efêmero ...



PAULO LEMINSKI


Erra uma vez


Erra uma vez

nunca cometo o mesmo erro

duas vezes

já cometo duas três

quatro cinco seis

até esse erro aprender

que só o erro tem vez



MANOEL DE BARROS


O catador


Um homem catava pregos no chão.

Sempre os encontrava deitados de comprido,

ou de lado,

ou de joelhos no chão.

Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais - o homem pensava.

Eles não exercem mais a função de pregar.

São patrimônios inúteis da humanidade.

Ganharam o privilégio do abandono.

O homem passava o dia inteiro nessa função de catar

pregos enferrujados.

Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.

Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.

Garante a soberania de Ser mais do que Ter.



Imagem: Mulher com pombas, Di Cavalcanti (1962)

sábado, 14 de junho de 2008

A incompletude dos seres



Analisando de maneira minuciosa a vida, os fatos, as pessoas e, adentrando ao mesmo tempo no mundo real e no nosso mundo imaginário, não é possível não esbarrar em um sentimento de incompletude, de algo que nos falta, um sentimento de que nada está completo. Essa não é uma discussão sobre a busca da perfeição, mas uma divagação sobre o ser humano tal qual é: cheio de deformidades. A mim, ocorre-me constantemente a sensação que faltam pedaços nas pessoas ou em mim mesmo como se figuras recém saídas de um quadro de Dali saíssem pelas ruas a caminhar com corpos despedaçados. É um sentimento estranho, sentimento de que sempre há algo faltando e que o ser humano em si não é simplesmente imperfeito como descreve a Bíblia. O ser humano não é “pecador”, uma vez que o conceito de “pecado” é inexistente para mim e relativo mesmo para quem o considera. Ao ser humano em geral e mesmo de maneira individual, faltam pedaços que não o deixam se sentir “completos”. E eles na verdade não o são. Há uma eterna busca por nossos pedaços e isso nos traz um constante sentimento de “incômodo”. Alguns grandes filósofos e artistas já tentaram suprir essa incompletude com teorias ou histórias, mas são mais felizes e realistas aqueles que simplesmente a descrevem ... não acredito que ela seja alcançável, ela é mais difícil que a imperfeição e, parafraseando Milan Kundera, se fosse possível seu alcance, esse seria insustentável.
Eu me sinto incompleto de uma forma gigantesca, como se a própria consciência da incompletude já fosse um indício para que essa fosse maior e mais incompreensível. Em mim a incompletude se manifesta ainda no não-pertencimento e isso é uma constante. Como é difícil olhar dentro de si mesmo e perceber que sentimentos que supúnhamos ter ou pertencer não são suficientes e que mesmo que o desenvolvêssemos, haveria sempre mais a criar ... eu me sinto às vezes como o gigante Atlas, carregando o mundo nas costas ou por vezes como os personagens de “O mágico de Oz”, à procura dos seus pedaços que eles julgam necessários, mas que não estão ao seu alcance.
A vida do ser humano segue então como a eterna busca se seu Santo Graal pessoal, seu pedaço perdido ou nunca adquirido. Alguns pensam supri-lo das mais diversas formas, mas essas não são mais do que formas de incluir próteses temporárias, enquanto seus verdadeiros pedaços não estão na verdade consigo. E permanece ainda o sentimento de dilaceramento constante, onde a incompletude se manifesta e ao fim, percebe-se que a busca por supri-la é em vão, já que ela é inata e é talvez a característica mais marcante que faz do ser humano diferente dos animais. Somos incompletos e quanto a isso não há o que discutir. Como humanos, porém, seguimos em nossa busca por nossos pedaços, como se a estrada de tijolos amarelos nos levasse até a Cidade Esmeralda, onde os pedaços que nos faltam estivessem todos a serem encontrados. Não podemos esquecer por fim que, tanto a eterna busca quanto a esperança são também inatas ao ser humano. E sigo ainda com o sentimento de incompletude, como se o texto também não tivesse fim ... já que é por si só incompleto. Sou humano!

domingo, 27 de abril de 2008

"A vida e o sonho" de Maria Judite de Carvalho


Há algum tempo não escrevo nada. Há bastante tempo esse espaço tem ficado sem novas postagens ... sem mais o que pensar e ao mesmo tempo completamente tocado por um conto recém lido, resolvi transcrevê-lo aqui. Esse conto foi extraído da obra “Tanta gente, Mariana ...”, da ainda desconhecida por mim escritora lusa Maria Judite de Carvalho. Ei-lo:

A Vida e o Sonho

Podia ter sido caixeiro-viajante, maquinista de comboios ou marinheiro. Não era porém nenhuma dessas coisas porque nós não fazemos, somos construídos pelas circunstâncias. O pai, naturalmente à força de muitos pedidos, conseguira que logo aos treze anos o metessem numa casa bancária importante onde lhe tinham dado uma farda cinzenta e um lugar de futuro. "Menino, então esse cheque?", "Menino, leve esta letra ao senhor Silva!", "Então, menino?", “Meni-i-no!”. Ele afadigava-se, muito zeloso, já sério, ansioso por cumprir, e sem compreender ainda que o seu desembaraço e o seu zelo começavam já a enleá-lo todo naquela engrenagem de que nunca mais saberia libertar-se. À noite, em casa, devorava os livros de Emílio Salgari que um colega, Mais abandonado do que ele, lhe ia emprestando. Outras vezes folheava um velho atlas roído e vomitado já por várias guerras, que o pai comprava em tempos num alfarrabista. Mas o que podiam significar para o Adérito as linhas das fronteiras? A ele bastavam-lhe aquelas vastas extensões azuis, aquelas cidades de nomes exóticos que lia (mal) em voz alta, para se ouvir, quase com volúpia.
Depois os anos tinham passado quase sem ele dar por que passavam, cheios de dias longos, todos iguais, sem interesse. Começou a atender ao balcão, teve secretária própria com pasta e com esponja (era um lugar de futuro), conheceu mulheres – poucas – , casou. Era agora ele quem chamava “Menino! Menino!” E sentia sempre ao fazê-lo, como que um aperto na garganta, uma espécie que ele próprio não saberia explicar e também de culpa, principalmente de culpa para com aqueles rapazinhos sérios, ativos, muitos zelosos.
Pensava raramente (para ir até o fundo das coisas?), mas às vezes achava-se a dizer a si próprio que não tinha nascido para aquilo e que talvez ainda estivesse a tempo de fugir. Mas de quê? Para onde? Gostava do seu trabalho. Gostaria de fato? A verdade é que não sabia fazer outro. Números, números, dias, meses, anos de números, anos terrivelmente abstratos para ele e concretos, estava bem de ver para muitas outras pessoas. Não tinha nascido para aquilo, era possível. Mas quem nasce para o que é? – reflita a querer consolar-se. Era um homem plácido, habituado a suportar as contrariedades da vida. Um homem para quem os prazeres não eram muito fortes nem os desgostos muito intoleráveis. Um homem metódico, com sonhos impossíveis mas nenhumas ambições.
Vestia todos os domingos o seu melhor fato, punha a gravata do dia dos anos e saía para o futebol. A mulher também se preparava e ia à casa da mãe. Às vezes saiam juntos, só se despediam ao fim da rua, beijavam-se sem dar por isso. Era um costume antigo que tanto um como o outro sempre tinham achado natural aquele de se separarem ao domingo à tarde. Tão natural e imutável como irem ao sábado à noite ao cinema do bairro ver uma fita qualquer, a que andasse ao sábado à noite, e irem ao domingo à missa das onze a São Domingo.
Às vezes, ao jantar, a mulher perguntava-lhe:
-Correu mal, o jogo?
O Adérito respondia-lhe que assim assim ou então que não tinha prestado. E corava sempre ao de leve porque era um homem a quem toda a mentira desagradava. Se mentia era só por sentir que a mulher compreendia mais facilmente as mentiras que lhe dizia do que as verdades que pudesse dizer-lhe. Não conseguia imaginar - e muitas vezes tinha pensado nisso - qual seria a reação dela se lhe onde passava, há quantos anos, as tardes de domingo. Todas. Quer chovesse, quer fizesse sol. Não o acreditava talvez, as mulheres têm sempre dificuldade em crer nas coisas simples, transparentes. Sim, ela nunca acreditaria que ele fosse para os cais ver os barcos que partiam ou então para o aeroporto olhar os aviões que deixavam a terra. Um dia tinha falado ao Costa, seu colega do Banco, dessa sua predileção e o Costa tinha sorrido um pequeno ar superior. Se o Costa não podia compreendê-lo, como havia a mulher, uma pobre rapariga oca... O Costa ainda tinha perguntado:
-Mas que interesse é que pode ter ti essa gente que vai de avião ou de barco?
E isso é que era estranho. O Adérito não ia ao aeroporto nem aos cais para ver as pessoas que partiam. Também não ia ver o barco nem o avião. Era mais complexo.
Nem ele próprio sabia – era um homem simples que procurava nesses momentos, sem dúvida os mais felizes, os mais cheios, os mais completos da sua existência sem vida. Era tudo e não era nada ao mesmo tempo. O cheiro forte, levemente podre daquela água próxima, escura, já misteriosa, o ar salgado a bater na pele, as vozes enervadas, as corridas, os gritos, uma ou outra lágrima, aquelas palavras de aventura calma, organizada, a encherem todo o campo. Vi partir com destino a Karachi...Ou, com destino ao Brasil...ou para Nova Iorque...Depois, e isso era maior do que tudo, o grande pássaro a rugir, a arrastar-se pelo chão, depois a rasgar o espaço ou então o barco enorme a correr quieto como o tempo sobre as ondas ligeiras do rio quase oceano.
Às vezes deixava-se ficar até o barco desaparecer. Experimentava uma espécie de angústia, qualquer coisa como se alguém muito querido se tivesse ido embora para sempre. Mas não era bem isso. O que ele sentia era uma grande dor por essa pessoa, ele próprio, ter ficado.
Punha-se então a caminhar ao longo dos cais e havia sempre homens muito sujos ou talvez queimados de sol, ele não sabia, que tiravam ou punham fardos em navios de carga que tinham chegado ou iam partir. Homens com caras de aventura. Homens. Às vezes parava a olhar para os barcos, pequenos e de ar antigo, que a água apodrecera, sempre em movimento e sempre parados, presos com cordas grossas a postes de ferro. Presos para não irem água fora. Presos como ele.
Regressava sempre à casa melancólico. Via a mesa posta para o jantar, o abajur encamado, a estatueta do rapaz a comer cerejas (as cerejas balouçavam quando ele entrava) a própria mulher já gorda e amolecida da idade, com outros olhos, os olhos novos de alguém que regressou de longe e caiu de repente, sem preparação, na vida quotidiana, na vida antiga, na vida que estava à sua espera, na ‘sua’ vida afinal.
A mulher perguntava enquanto servia a sopa:
-Correu mal, o jogo?
Ele corava.
-Assim assim. E a tua mãe, como está?
Às vezes, à noite, chovia. Os pingos batiam com força na vidraça, o vento varria a rua toda. Ela deixava cair o trabalho no solo, enrolava-se mais no xale porque era muito friorenta.
-Sabe bem estar em casa, dizia.- Sabe onde eu me sentia feliz? Na África...
Ele sorria ao de leve, ia até à estante, abria o Robinson Crusoé ou um livro qualquer de Júlio Verne, tantas vezes lido que já lhe sabia passagens de cor.
Na manhã seguinte voltava ao Banco e somava e multiplicava e dividia. “Menino!”, “Então, menino?” Mas tinha um ar culpado e os garotos não o respeitavam. Era sempre ele o último a ser servido.
Certo dia um dos diretores chamou-o, fê-lo sentar numa daquelas poltronas de cabedal verde que até então ele só conhecia de vista. Era um homem gordo, muito aromático, sorridente, com brilhantes nos dedos. Olhou para o Adérito com intensidade, como se quisesse ler-lhe os pensamentos.
-Sabe por que o mandei chamar?
Mas o Adérito não sabia. Também não tinha pensamentos. Estava sentado na borda da poltrona e tinha as mãos sobre os joelhos unidos, respeitosamente unidos. Esperava.
O diretor pôs-se a falar. Que a direção reconhecia o seu valor, a sua dedicação à casa, o seu amor ao trabalho. Como já devia ter ouvido, o Banco ia ter uma sucursal em Lourenço Marques. O caso era que a direção tinha pensado nele, Adérito, para a dirigir, enfim, para gerir. Seria, claro, aumentado. Atrevia-se mesmo a assegurar-lhe que teria um aumento considerável... Considerável... Enfim, uma situação muitíssimo vantajosa. Sem falar no prestígio. Mas que pensasse, pensasse depois lhe diria se aceitava ou não.
O Adérito não pensou, ou melhor, pensou muito pouco. Também não falou daquilo à mulher porque ela não saberia compreende a resolução que tinha tomado, ainda o diretor lhe estava a expor o caso. Sempre sonhara ser uma senhora, coitada. Uma senhora como ela era capaz de ambicionar. Com muitos chapéus, muitos vestidos e muitos bolos para oferecer às visitas. Mulher dum gerente numa cidade colonial... Nunca lhe perdoaria a recusa, claro. Falou ao diretor na saúde da mulher, no seu próprio fígado, muito sensível. Tudo mentira, naturalmente. Por que então, por quê? Nem ele próprio sabia. E daí talvez, pensando bem. Talvez porque havia pessoas que sonhavam e viviam ao mesmo tempo, os homens negros dos barcos, os atores e as atrizes que ele via ao sábado à noite no cinema do bairro, e ele se habituara a sonhar e a viver.Talvez fosse por isso. Agora era tarde, demasiado tarde. Já não saberia viver um sonho. Sentia-se velho, horrivelmente velho e cansado, muito, muito cansado. Muito triste também.
Foi o Costa quem um dia partiu, num bonito paquete. No cais, o Adérito tinha os olhos bem abertos e sentia uma grande, uma enorme angústia. Deixou-se ficar até o barco se diluir todo no nevoeiro espesso que nessa manhã cobria o Tejo. Depois ainda deu um salto ao aeroporto a ver sair os aviões.

Maria Judite de Carvalho

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Como é distante o país dos sonhos


É incrível como até certo ponto de nossa vida, os sonhos nos parecem palpáveis, por mais distante que pareçam e por mais altos que sejam. Perguntam-nos o que gostaríamos de ser quando crescer: respondemos que queremos ser as coisas mais incríveis, desde astronautas até arqueólogos, como se realizar sonhos como esses dependessem pura e simplesmente de crescer. Não quero parecer pessimista, mas a realidade bate à nossa porta cedo ou tarde e os sonhos vão sendo deixados de lado ou adiados, pois percebemos que a realidade não comporta a esmagadora maioria das vezes a grandiosidade de nossos sonhos. Ao menos constato que os meus não.
Na adolescência, se temos alguma convicção política, sonhamos em mudar o mundo: conseguiremos acabar com a destruição da Amazônia, garantir a paz no Oriente Médio, descobrir a cura da AIDS ou acabar com a fome no Terceiro Mundo. Somos mais realistas com nossos sonhos e ao crescer, nos deparamos com caminhos que nos levam a escolhas e conseqüentemente à desistência de alguns desses sonhos ... para alguns, o eterno amor está prestes a chegar da maneira mais “hollywoodiana” possível ... alguns ainda esperam por isso
Com o tempo, percebe-se que a realidade é um pouco diferente e que o país dos sonhos é um local cujo visto de entrada pode ser negado facilmente ou às vezes nós mesmo paramos ainda na alfândega ... a viagem pode parecer muito longa.
Confesso que às vezes penso que esse país é uma forma utópica de convencermos a nós mesmos que a vida não é tão dura assim. Afinal de contas nada seria tão cruel que bombardear uma criança de realidade e privá-la de sonhar. Uma coisa é certa: mesmo desistindo de alguns sonhos pela circunstâncias que nos são impostas, eles têm que existir. O contrário seria o caos.
Assim, dirijo-me ao consulado mais próximo e esse período de espera pelo visto de entrada funcionará como alento para essa árdua espera. Eu me pergunto: que tempo deve estar fazendo agora no país dos sonhos? Preciso me preparar, já que uma viagem tão longa, deve ser bem planejada ... se bem que não custa nada sonhar sob a chuva ou vendo cair a neve.

Imagem: "O sonho", de 1910, do pintor primitivista francês Henri Rousseau

sábado, 20 de outubro de 2007

"Minha pátria é a língua Portuguesa"



"A minha pátria é a língua portuguesa", disse o mestre Fernando Pessoa e faço minhas suas palavras. A identificação que tenho com artistas lusófonos é tamanha que sinto próximo a mim qualquer pessoa que tenha como língua-materna a "última flor do Lácio" de Olavo Bilac. Sou um apaixonado declarado pela língua Portuguesa, pelo seu som, pelo seu ritmo, pelos seus sotaques, pelos seus grandes artistas. Tanto que ao invés de escrever, vou hoje mostrar um pouco do som da lusofonia, de um grupo que mistura som e poesia e traz em si o que a nossa música tem de melhor: o fado português, a Música Popular Brasileira, as músicas pop e erudita contemporênas, as músicas populares ibéricas... dessa mistura, e da voz da inigualável Teresa Salgueiro, surge a poesia musical que marca o grupo lusófono incomparável "Madredeus"


Aqui o link para o vídeo "Haja o que houver". Sinta-o:




"Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."


Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Gavetas


Não fui trabalhar hoje. Fiquei em casa. Quase nunca faço isso e aproveitei para arrumar algumas gavetas de papéis, cartas, fotos e toda e qualquer coisa possível de ser guardada e que eu ainda não havia jogado fora em minhas faxinas reflexivas anteriores. Um dia ainda vou defender uma tese sobre o efeito que uma gaveta sendo arrumada pode causar em nossa cabeça. Na minha pelo menos causa. Imagino o título já, com retoques de pseudo-erudição: “A influência do ato de arrumar gavetas na desorganizada mente humana”. Tão ridículo, quanto patético, fruto de uma imaginação tão fértil quanto sarcástica. Se eu fosse conhecido ganharia o igNobel pela irrelevância dessa pesquisa para a humanidade ... tão relevante quanto a pesquisa de um biólogo norueguês que escreveu sua tese acerca do efeito da cerveja, alho e creme azedo sobre o apetite dos piolhos ou do lituano que recebeu o igNobel da Paz por criar o parque temático “O mundo de Stálin” ...
Divagações e parênteses à parte é certo que me sinto muito bem quando vou às dezenas de gavetas de papéis do meu quarto e começo a arrumá-las, metodicamente classsificá-las e rearrumá-las ... há verdadeiramente uma sensação de organização mental.
Tenho uma caixa com cartões que recebi nos últimos doze anos. Cartões de Natal, quando eu ainda gostava de Natal. Cartões de aniversário de amigos que ainda conservo e de alguns que me lembro com carinho, mas que perdi completamente o contato. Mensagens que me fazem refletir sobre um tempo em que ainda sonhava em mudar o mundo e que tinha sonhos que ainda conservo que visualizo hoje com lentes de maior realidade. Encontrei textos que escrevi há anos, encontrei todo e qualquer ingresso de parques, museus, shows e festas que fui nos últimos anos ... revirar essa caixa para mim é como reviver toda uma vida.
Passei para as mais de mil cartas que meus 10 anos de correspondência com o mundo produziram ... li alguma que me tocavam mais, como a carta de uma amiga italiana que continha um lindíssimo cartão por ocasião dos meus 18 anos, relembrei com carinho meus amigos tão queridos que eu nunca encontrei e que sempre sonhei encontrar: Clara Wella, Benjamin Manav, Jana Kunstek, Rosi Pagani, Zita Grineviciute, Juan Jiménez, Inna Lapis entre tantos outros ... por anos dividi meu mundo com todas essas pessoas e compreendi o quanto somos cidadãos de um mundo só. Eu cresci, dividindo as mesmas indagações, protestos e alegrias que jovens dos quatro cantos do mundo ... isso me ajudou muito a quebrar barreiras de preconceito, um preconceito de quem sempre acha o outro diferente por algo, quando na verdade sempre fomos todos tão iguais além da casca chamada “cultura” que aprendemos cada qual no meio em que vivemos.
Remexi, por fim em fotografias. Há umas cinco gavetas específicas para elas, devido à quantidade da era pré-digital. Arrumei primeiro um grande lote de fotos antigas da família do meu pai, com rostos irreconhecíveis para qualquer pessoa hoje. Eram fotos enviadas por parentes na Itália na década de 30, com dedicatórias em italiano no verso. Fotos tiradas no Brasil, em lugares que eu nem imagino, mas que gosto de olhar e imaginar o exato momento em que aqueles rostos foram imortalizados. Será que eles imaginavam que 80 anos depois alguém olharia para a foto deles e se perguntariam quem eram ou que pensavam?
Passei para um bloco de fotos mais numerosas, cujos rostos expressos me eram familiares ... eu me dediquei em especial, de maneira egocêntrica, às minhas fotos: centenas delas! E imaginei o que pensariam os meus futuros parentes dentro de 80 anos ao observarem meu rosto. Passei pelas minhas fotos de bebê, de cabelo castanho-claro (e testa proeminente!) e olhos já bastante escuros, apesar da tendência familiar que acompanhou muitos de meus primos a terem olhos azuis! Vi minhas fotos de escola, meus primeiros óculos (enormes por sinal), depois vieram fotos de adolescência, época em que eu menos me registrei por odiar minha aparência. Dessa época guardo mais textos que imagens ... eu era bastante revolucionário e sinto falta dos meus sonhos de então. Continuei pelas fotos de viagens (que saudades da França!), fotos da faculdade, fotos com amigos, com a família ... eu revivi minha história. Recontei fatos a mim mesmo e fiquei feliz por me convencer que eles realmente aconteceram da maneira que eu os recriei. Senti que eu já não era mais o adolescente que criticava o sistema sem ser socialista; que abominava a hipocrisia do Vaticano, mas freqüentava a igreja; que admirava profundamente a Itália e sonhava um dia viver lá como no tempo dos antepassados; que lia o jornal todos os dias e ficava feliz quando ia chover no norte do estado de São Paulo; que guardava uma paixão pelo povo judeu até hoje inexplicável ... e que sonhava mais do que vivia.
Eu recoloquei tudo no lugar, reclassifiquei com método cada gaveta e meus pensamentos foram sistematicamente sendo ajustados. Não pretendo defender nenhuma tese, mas não poderia ter escolhido uma ocupação melhor. Isso me fez tão bem! Mal posso esperar para que minhas gavetas estejam de novo em desordem, com cadernos, fotos, textos e tudo mais um pouco fora de lugar. Se isso demorar, eu sempre posso inventar uma nova maneira de classificar as coisas para poder olhá-las uma a uma e reclassificá-las no lugar que lhes é cabível. E passarei uma tarde nostálgica, com saudades até, de um tempo bem vivido e de um tempo bom, sendo vivido.


Imagem: Quadro de Salvador Dalí, cujo nome desonheço